7 de Junho de 2008

Surdos podem dirigir. Ser engenheiros da Petrobras, não

Arquivado sob: Comunicação, Artigo — admin @ 00:05

ROSE BAHIANA

Os surdos estão aptos para dirigir automóveis nos centros urbanos. Mas não para trabalhar na Petrobras. Não em cargos que exijam nível superior, como engenheiros de petróleo. A Petrobras baseia a decisão numa interpretação livre do artigo 38 do decreto 3298/99, que determinou o sistema de cotas para deficientes em concursos. O artigo desobriga as empresas públicas a instituir os 5% de cotas, quando o cargo exigir “aptidão plena” do candidato. É o bastante para alguns burocratas decretarem que surdo não está apto para ocupar uma das 251 vagas de engenheiro de petróleo.

Não adianta burlar a proibição e fazer a prova em igualdade de condições. Será barrado pela perícia médica. O problema é vivido por um engenheiro químico inscrito para o próximo concurso da estatal. Mesmo com um currículo que inclui parte do curso de Astronomia, a conclusão do curso de Engenharia Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e estágio no Cenpes, ele só deve pretender cargo compatível com a sua condição de surdo: técnico de nível inferior.

O engenheiro passou por uma operação de implante coclear (técnica avançada de combate à surdez) com recursos da própria Petrobras, através da qual ganhou níveis aceitáveis de audição. Quando realizada em crianças, as transformam em ouvintes. Mas, mesmo antes disso, já falava e se comunicava por palavras. Caso contrário, não se formaria pela UFRJ. Há anos atrás, quando ainda era bebê, o médico que diagnosticou sua surdez disse que o máximo que seus pais poderiam esperar dele era a ocupação de lixeiro. Nem isso é possível: tem qualificação demais para o posto. Mas, num país tão pródigo em oferecer recompensas e caridades, tais como o Bolsa-Ditadura e o Bolsa-Família, talvez um bom caminho fosse reivindicar o Bolsa-Discriminação.

6 de Junho de 2008

Complicada Arte de Ver

Arquivado sob: Comunicação, Artigo — admin @ 08:15

RUBEM ALVES

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: ‘Acho que estou ficando louca’. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. ‘Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.’

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as ‘Odes Elementales’, de Pablo Neruda. Procurei a ‘Ode à Cebola’ e lhe disse: ‘Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver’.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: ‘A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê’. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: ‘Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra’. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. ‘Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios’, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada ’satori’, a abertura do ‘terceiro olho’. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: ‘Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram’.

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, ’seus olhos se abriram’. Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em ‘Operário em Construção’: ‘De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção’.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: ‘A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas’.

Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar ‘olhos vagabundos’…

* O texto acima foi extraído da seção ‘Sinapse’, jornal ‘Folha de S.Paulo’, versão on line, publicado em 26/10/2004 / Grupo de discussão na internet Além da Visão

28 de Maio de 2008

Ricardo e sua banda

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O Estado de São Paulo, 27/05/2008:

Ricardo e sua banda

Aloizio Mercadante *

Ricardo Oliveira da Silva, de 19 anos, é uma dessas figuras fantásticas e improváveis que o Brasil produz de forma recorrente. Filho de agricultores muito pobres do interior do Ceará, portador de doença neurológica que o impede de se locomover, Ricardo foi alfabetizado pela mãe, dona Francisca, e recebe a assistência de professores da escola mais próxima há apenas três anos. Muitas vezes, o pai, seu Joaquim, teve de levá-lo à escola num carrinho de mão improvisado para que ele pudesse fazer as provas.

Mas, superando o aparentemente insuperável, Ricardo surpreendeu: já ganhou duas medalhas de ouro nas Olimpíadas Brasileiras de Matemática das Escolas Públicas, concorrendo com 17 milhões de alunos, além de uma medalha de ouro nas Olimpíadas Brasileiras de Astronomia e Astrologia.

Condecorado pelo presidente Lula no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde foi ovacionado pelo público, Ricardo não conseguiu falar. ‘Fiquei nervoso’, disse. Na Comissão de Assuntos Sociais do Senado, na qual também foi homenageado, Ricardo, um garoto simples e tímido, foi igualmente econômico nas palavras. Indagado se precisava de alguma coisa, disse que não era pessoa de ficar pedindo.

Contudo Ricardo, muito inteligente, sabe bem o que quer. Embora diga não precisar de nada, afirma que, se querem dar-lhe presentes, que tragam livros. Ele quer conhecimentos e informações. Sabe que é isso que faz a diferença na vida das pessoas e das sociedades.

Pois bem, Ricardo ganhou dois presentes: um desktop e um notebook. Ótimo, o acesso à informática é importante. Mas há um grave problema: Ricardo, que mora num lugar onde nem sequer há sinal de telefonia, não tem internet. Deram-lhe as asas, mas ele não tem o céu de conhecimentos da internet para voar. Por isso ele sonha com o acesso à rede mundial de computadores. ‘Acho’, diz ele, ‘que com a internet vai ser mais fácil estudar e me comunicar com os professores.’

Assim como Ricardo, há milhões de jovens brasileiros que sonham com as informações e as oportunidades que a internet disponibiliza. São cidadãos hoje submetidos à iniqüidade do apartheid digital e que enfrentarão grandes dificuldades para estudar, comunicar-se e adquirir os conhecimentos necessários para se tornarem produtivos e bem-sucedidos no futuro. De fato, enquanto entre os 10% mais pobres da população brasileira apenas 0,6% têm acesso a computador com internet, entre os 10% mais ricos esse índice é de 56,3%. O pior, porém, é que esse apartheid se reproduz nas escolas: no ensino fundamental, apenas 17,2% dos alunos das escolas públicas usam a internet, ao passo que nas escolas particulares esse número sobe para 74,3%.

Entre esses milhões de jovens brasileiros atualmente excluídos dos benefícios da era digital, há, com certeza, muitos ‘Ricardos’ esperando pelas oportunidades que a rede mundial de computadores fornece para poderem desenvolver todo o seu potencial. O Brasil precisa dar um salto de qualidade em sua educação e colocar esses jovens no século 21, em condições de competirem no mercado de trabalho por um futuro melhor. Se nada for feito, esse imenso potencial humano, estratégico para a competitividade do País, será criminosamente desperdiçado.

Por isso, o governo já começou a implementar o programa que vai colocar internet de banda larga nas escolas públicas urbanas do Brasil. Mediante um acordo com as empresas de telecomunicações que vinha defendendo desde o início do ano passado, qual seja, o de trocar a instalação de arcaicos ‘postos de serviço’ com orelhões e fax por modernas linhas de internet de banda larga, cerca 55 mil escolas e 83% dos alunos da rede pública estarão conectados à rede mundial, no prazo de três anos. Esse programa, financiado com recursos do Ministério da Educação (MEC), representa passo importante para modernizar a educação e contribuirá para melhorar o sofrível resultado de nossos alunos nos testes internacionais de desempenho.

Mas não basta. Não basta para o Ricardo e não basta para o Brasil. Ricardo, que mora na zona rural do interior do Ceará, não será beneficiado por esse programa. E, assim como ele, milhões de estudantes carentes do interior de todo o Brasil continuarão a ser vítimas do apartheid digital.

Tenho projeto, aprovado por unanimidade no Senado e atualmente tramitando na Câmara dos Deputados, que prevê o descontingenciamento de 75% dos recursos do Fust, fundo criado justamente para universalizar as telecomunicações, com o objetivo de viabilizar a implantação de banda larga em todas as 137 mil escolas públicas, urbanas e rurais, e promover a inclusão digital de 47 milhões de alunos. Ninguém ficaria de fora e ainda haveria dinheiro suficiente também para treinar professores e desenvolver conteúdo adequado ao ensino pela rede digital. Tenho certeza que o deputado Marcelo Ortiz (PV-SP), presidente da comissão especial da Câmara que trata do projeto, e o deputado Paulo Henrique Lustosa (PMDB-CE), relator da mesma comissão, conscientes da importância dessa iniciativa e parlamentares competentes, farão todo o possível para aprová-lo com celeridade.

Assim, creio que o melhor presente que poderíamos dar ao Ricardo e a outros milhões como ele, que sonham com o século 21, seria a aprovação desse projeto. Ricardo, embora não tenha o hábito de pedir, agradeceria. O País, entretanto, agradeceria ainda mais. Afinal, quando a banda larga, a banda que toca a música do conhecimento e da competitividade, tocar para todos, inclusive para o Ricardo, o Brasil ganhará também uma olimpíada: a olimpíada dos países prósperos e justos.

* Aloizio Mercadante, economista e professor licenciado da PUC-SP e da Unicamp, é senador da República pelo PT-SP

20 de Maio de 2008

Vinte anos de Seul

Arquivado sob: Ações Políticas, Artigo — admin @ 16:46

Meus caros amigos,

Para o movimento paraolimpico brasileiro o ano de 2008 representa um marco histórico que merece e precisa ser comemorado. Foram nos Jogos Paraolimpicos de Seul em 1988, há exatos 20 anos, que tivemos a primeira participação brasileira com uma delegação única representando esse segmento esportivo do nosso país. Os atletas, técnicos e dirigentes que tiveram a honra e a felicidade de viver essa emoção sabem que muito do que conseguiu em 1988 somente foi possível pela visão de uma jovem que abraçava com muita garra a defesa dos direitos das pessoas portadoras de deficiência. TERESA COSTA D’AMARAL, a época Coordenadora da CORDE, acreditou no projeto que lhe foi apresentado, deu forças ao mesmo e conseguiu com o grande prestígio e o apoio que desfrutava junto ao Governo Sarney contribuir de forma decisiva no desafio de levar a equipe brasileira a Seul.

Lembro com emoção quando no dia 11 de agosto de 1988, em cerimônia memorável e bastante concorrida realizada no Salão Nobre do Palácio do Itamaraty no Rio de Janeiro, apresentamos o projeto de participação brasileira para autoridades, esportistas famosos, empresas e para a imprensa especializada. Nesse dia também lançamos oficialmente o projeto de constituição do Comitê Paraolimpico Brasileiro que, sete anos após, em 1995 viria a ser oficialmente fundado. A repercussão da festa ficou gravada na memória de todos aqueles que lá estiveram. Foi gratificante ver nossos para-atletas sendo homenageados por grandes astros do esporte nacional, muitos deles se preparando para irem aos Jogos Olímpicos de Seul, que estiveram conosco. Presentes, entre outros, ANA RICHA do Voleibol, ROBSON CAETANO do Atletismo, MAGIC PAULA do Basquetebol, ROBERTO DINAMITE, ídolo do futebol, nosso querido e saudoso JOÃO CARLOS DE OLIVEIRA, JOÃO DO PULO. Com alegria relembro ainda a edição nº. 01 da revista TOQUE A TOQUE editada pela ABRADECAR que publicou belíssima matéria com fotos da grande festa.

Esse impulso dado ao movimento somado aos bons resultados alcançados por nossa equipe em Seul ajudou a ficar menos difícil a continuidade do projeto paraolimpico brasileiro. Entre as boas conseqüências desse trabalho inicial apoiado pela CORDE na figura impar de sua coordenadora Teresa Amaral, conseguimos, entre outras coisas, na proposta de criação SEDES/PR - Secretaria de Desportos da Presidência da República em 1990, que fosse inserido em sua estrutura o DEPED - Departamento de Desportos para Pessoas Portadoras de Deficiência, que tive o orgulho e o privilégio de ser o Diretor.

Com a ajuda dos Secretários ZICO e depois BERNARD, pudemos repetir o trabalho para os Jogos de Barcelona em 1992 e deixar ainda mais sedimentado o caminho para a criação formal do CPB.

Muitas outras pessoas foram e continuam sendo importantes nessa história. Gostaria de homenagear a todos citando apenas o nome de um que não podemos, em nenhum momento por questão de justiça e decência, esquecer do que representou a sua inestimável colaboração: JOSÉ GOMES BLANCO. Amigo, parceiro, bravo guerreiro da nossa causa que a sua memória seja perpetuada no movimento paraolimpico brasileiro.

Certamente podemos dizer que hoje a situação é muito melhor do que tínhamos em 1988. Em termos de divulgação, apoio da mídia, conhecimento público e, principalmente, disponibilidade de recursos financeiros, estamos muito melhores, mas, lamentavelmente, as pessoas atualmente em postos chaves estão mais interessadas em manter suas posições e acumular poderes deixando de lado o mais importante que é o compromisso sério para com o desporto paraolimpico.

Com isso os maiores prejudicados continuam sendo atletas e técnicos.

VANILTON SENATORE

Resgatando parte da história “Seul 20 Anos”

Arquivado sob: Ações Políticas, Artigo — admin @ 16:44

Luiz Claudio Pereira *

Claro que há controvérsia, mas a circunstância de eu ser conhecedor de alguns fatos, de ter vivido algumas épocas, me obriga a relatar, até porque a nossa história precisa ser dita, escrita, para melhor ser difundida.

Em 1982 o Brasil ousa levar para o exterior uma delegação de atletismo composta, na sua maioria, por atletas com deficiências mais severas. Era o campeonato Parapan-Americano, na cidade de Halifax, no Canadá, comandado pela grande e extraordinária Sandra Perez . O resultado surpreendeu a todos: foram 14 pessoas na ida e 28 medalhas na bagagem na volta - uma proporção de duas medalhas por pessoa. A partir desse momento, todas as viagens passaram a ser integradas por atletas com deficiências mais severas, além das viagens não serem mais uma prerrogativa somente da modalidade de basquete. Enfim, o atletismo conquistou seu espaço, levou consigo também outras modalidades, como natação, halterofilismo, além de outras.

Ganhamos força, visibilidade, e não foram somente as modalidades que cresceram. As instituições dirigentes do desporto paraolímpico também cresceram. Já por conta dos Jogos Paraolímpicos de Seul, na Coréia, em 1988, foi necessário juntar as ações das entidades nacionais, transformando todos os esforços em uma única ação. Esse esforço foi realizado com a liderança de Teresa Amaral e Vanilton Senatore, ambos então trabalhando na CORDE, que reuniram recursos e apoios para viabilizar a nossa participação em Seul. Logo, penso que neste momento surge, não de direito, mas de fato, o Comitê Paraolímpico Brasileiro. Os representantes da ABDA, ABDC, ANDE e ABDEM debateram a criação do NPC do país. Numa decisão conjunta, somente em 9 de fevereiro de 1995 foi homologado e registrado como personalidade jurídica o Comitê Paraolímpico Brasileiro-CPB, com sede na cidade de Niterói, RJ. João Batista de Carvalho e Silva foi indicado para ser o primeiro presidente da entidade, isso já sabido por todos. Como podemos observar, existia uma idéia, uma ação, uma mobilização. Porque não um registro, um muito obrigado, a essas duas pessoas que nos ajudaram definitivamente a garantir, com seus esforços pessoais e muita determinação, atuaram de forma decisiva para que conseguíssemos chegar ao que somos e temos hoje. Valeu Teresa Amaral e Vanilton Senatore! Parabéns Seul, por seus vinte anos completados em 2008.

* Ex-atleta parapan-americano, mundial e paraolímpico.

Adeus às ilusões

Arquivado sob: Comunicação, Artigo — admin @ 11:37

ANDREI BASTOS

Sem prejuízo nenhum da minha disposição de luta pelos direitos das pessoas com deficiência, eu acredito que é muito difícil um candidato com deficiência se eleger nestas eleições, ou em qualquer outra, exclusivamente com a bandeira da deficiência. Os motivos que identifico para isso têm origem na discriminação e no preconceito históricos, construtores da “invisibilidade” dessas pessoas junto com a baixa auto-estima de grande parte delas, passam pelas divisões do seu movimento, também históricas e que empanam mesmo os interesses claramente comuns, e terminam com sua pouca experiência em política partidária e eleitoral, que é o resultado mais direto e imediato da marginalização operada pelas barreiras arquitetônicas, atitudinais e de comunicação colocadas pela sociedade.

Como decorrência, entendo que, neste momento, nossa ação estratégica mais conseqüente deve ser estimular o maior número possível de pessoas com deficiência a se candidatarem à vereança, para que fique definitivamente marcada nossa presença nos processos sociais, tornando-a natural particularmente nas disputas eleitorais e, quem sabe, na vida parlamentar.

Esta “banalização” me parece necessária para o amadurecimento político do segmento que, numa segunda ação estratégica, terá melhores condições práticas e teóricas para equacionar suas divergências e definir firmemente seus objetivos comuns, podendo então trabalhar com maior efetividade para conquistá-los.

É por pensar assim que, no caso de eu vir a me candidatar, acredito na enorme dificuldade de me eleger, e isso não me incomoda pois esta é apenas uma possibilidade remota e não um objetivo necessariamente, ainda mais porque não tenho dinheiro ou ligações poderosas, o que de fato pesa na balança atual das disputas eleitorais. Portanto, convoco as pessoas com deficiência a se candidatarem nestas eleições e nas seguintes, não importando os partidos e resultados dos pleitos, para que ocupemos o maior espaço possível no processo eleitoral, o que inevitavelmente nos dará mais visibilidade e criará as condições para um maior amadurecimento político do nosso segmento. Por enquanto, o que interessa é o processo.

Pessoas com deficiência do mundo, uni-vos!

13 de Maio de 2008

A Convenção de 13 de maio

Arquivado sob: Comunicação, Artigo — admin @ 15:05

ANDREI BASTOS

A ratificação da Convenção da ONU para as Pessoas com Deficiência e de seu Protocolo Facultativo, levando-se em conta que o Brasil já dispõe de legislação avançada no que tange aos direitos dessas pessoas, inclusive considerada por institutos internacionais como a melhor das Américas, significa, além de um efetivo avanço no que é apresentado de novo pelo seu texto, o estabelecimento do indispensável respaldo internacional para o que já temos de bom em nossas leis, o que, sem dúvida, contribui decisivamente para a efetividade geral da legislação.

Entre seus inúmeros aspectos positivos, a Convenção ratifica o entendimento, que já era de muitos de nós, de que as questões das pessoas com deficiência são de natureza social e não médica, como sempre foram entendidas e colocadas. Em outras palavras, deficiência não é sinônimo de doença.

Além disso, ao retirar o caráter assistencialista que sempre marcou o atendimento às necessidades específicas das pessoas com deficiência, com o deslocamento desse referencial para uma perspectiva social e deixando claro que suas demandas são direitos inquestionáveis, a Convenção dá ênfase definitiva nos direitos humanos e na cidadania dessas pessoas.

Com esta compreensão, fica claro que o problema não está na deficiência, mas nas barreiras que existem nos ambientes, quer sejam arquitetônicas, de comunicação ou atitudinais. Da mesma forma, estas mesmas barreiras ganham dimensão maior se as condições sociais em que vive uma pessoa com deficiência forem precárias. Ou seja: a qualidade de vida de uma pessoa com deficiência, mesmo esta deficiência sendo severa, pode ser boa se o ambiente for acessível, evidenciando-se que são políticas públicas que atendam à diversidade humana que devem ter prevalência na discussão das questões dessas pessoas e não histórias de superação individual.

A Convenção também deixa claro que a deficiência é um atributo do ser humano - como ser alto, gordo, baixo ou magro - e que, portanto, tendo atendidas suas necessidades para equiparar-se aos demais, as pessoas com deficiência integram a pluralidade humana e podem contribuir para o progresso social, da mesma forma que são sujeitos de direitos e deveres como todos os cidadãos. Neste sentido, o texto da Convenção define os conceitos fundamentais de acessibilidade e desenho universal, que são as ferramentas que possibilitam independência e autonomia. Nunca é demais dizer que são as barreiras existentes na sociedade que primeiro impedem o exercício da plena cidadania pelas pessoas com deficiência, e não as deficiências em si.

Como o Brasil já conta com uma boa legislação e o problema maior é que ela não é cumprida, até em direitos fundamentais e constitucionais como o de ir e vir, ratificar e dar aplicabilidade à Convenção da ONU é a única maneira de melhorar a legislação que já temos, sem precisar criar nenhuma nova lei ou estatuto.

30 de Abril de 2008

Calorias e preconceitos

Arquivado sob: Comunicação, Artigo — admin @ 16:04

MARTA GIL (*)

Reza a lenda que Calorias são seres minúsculos, praticamente invisíveis, que se escondem nos armários (têm preferência pelos femininos) e trabalham a noite toda, apertando as roupas.

Já os Preconceitos são seres com características semelhantes de tamanho e invisibilidade, que formam uma família grande, mas todos têm um traço em comum: a violência, seja moral ou física.

Alguns Preconceitos circulam livremente à luz do sol, pois não têm medo de serem vistos. Acham que têm razão e por isso se mostram. São truculentos e valentões. Massacram quem não concorda com seus pontos de vista, pois não têm argumentos que resistam à reflexão ou à comprovação. Reproduzem-se de forma exuberante especialmente em algumas épocas da História, em diferentes lugares. Basta lembrar da prima Eugenia, que reinou absoluta na Alemanha nazista, nos primos Apartheid da África do Sul, nos diversos momentos de escravidão, que se apoiaram no ramo do Racismo. A geração mais jovem, os Bullying, está na crista da onda; mas, na verdade, eles estão por aí desde sempre, só modernizaram seu nome e estão mais conhecidos.

Outros Preconceitos, mais próximos das Calorias, se escondem em locais escuros e improváveis. São mestres do disfarce. Parecem inocentes e têm cara de bonzinho, o que dificulta sua identificação. Lembram o Gato do Shrek, que tem aquele olhar meigo, carente…e de repente mostra as garras. É difícil identificá-los e desmascará-los. Estão em toda a parte, mas têm predileção por escolas e empresas. Por conta das mudanças sociais, assumem diversas identidades, da sutil à declarada. Recentemente um Preconceito foi detectado em uma escola, que recebeu uma criança com síndrome de Down e, um belo dia, soltou um flato, coisa que ocorre com todos nós. Mas o Preconceito estava ligadão e não ia perder esta oportunidade de ouro! Fez as professoras ligarem para a mãe, que saiu correndo de seu trabalho, passou em casa para pegar uma muda limpa de roupas e voou para a escola. Chegando lá, viu seu filho feliz e brincando: tinha sido só um flato, sem maiores conseqüências. Se fosse outra criança, sem deficiência, o Preconceito não teria esta oportunidade e não ficaria tão satisfeito consigo mesmo.

Alguns Preconceitos são musicais e podem ser encontrados em marchinhas de Carnaval (“Eu sou o pirata da perna de pau, do olho de vidro, da cara de mau”) ou em sambas (“Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia”, “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé”, “Como a cor não pega, mulata, mulata quero teu amor”) e outros. Este é um ramo da família extremamente resistente, pois fica na cabeça das pessoas, que saem cantarolando e os reproduzem, sem serem percebidos.

Outro ramo da família dos Preconceitos estabeleceu no Reino da Carochinha, onde o diferente, o que não é como todos mora no coração da floresta, como os 7 anões, que formam uma comunidade fechada e desconhecida. Alguns são malvados, como o Capitão Gancho. No Reino da Literatura Clássica o disforme, o que-não-é-como-os outros também vive escondido e envergonhado, como o Corcunda de Notre Dame ou o Fantasma da Ópera. Ou é um ser amargo e atormentado, como o Capitão Ahab, que persegue Moby Dick incessantemente, considerando-a culpada por ter ficado sem sua perna.

Paula Maciel, da Argentina, é especialista em um grupo de Preconceitos, as “frases assassinas”, que recebem este nome por seu poder de imobilizar as pessoas e inviabilizar ações, matando-as antes que nasçam. “Falei que não ia dar certo”, “É melhor não mudar”, “Não temos recursos” são dignos e eficientes representantes da família.

Como o Preconceito começou?

Segundo alguns estudiosos, ele está conosco desde o início da Humanidade. Entendem que ele teve um papel fundamental para garantir nossa sobrevivência, enquanto espécie.

O que é o pré-conceito?

É a capacidade de formar juízos (conceitos) e tomar decisões muito rapidamente. Imagine um grupo de homínidas à procura de alimento em um ambiente hostil. Estão famintos e encontram um fruto. É preciso decidir: é de comer? É venenoso? Come com a casca? E o caroço? Parece com outro que já comeu? Se sim, como se sentiu depois? Se não decidir e agir rapidamente, o outro rouba o fruto – ou continua com fome.

Situações semelhantes aconteciam quando o grupo se deparava com outro grupo de homínidas ou com um animal.

Assim, o ser humano desenvolveu a habilidade de criar classificações e aplicá-las imediatamente.

Os tempos mudaram, mas o ser humano conservou esta capacidade, que já não é útil para a sobrevivência. As pessoas continuam a ser classificadas: gordos são alegres e gostam de contar piada; negros gostam de samba e futebol; surdos são irritadiços; loiras são burras. Estas classificações são perversas: como que colocam um espelho na frente das pessoas rotuladas e dizem: “Você é isso”. “Esperamos que faça isso ou aquilo”.

Estas expectativas são moldes, que limitam as pessoas, seus talentos e habilidades. Restringem o nosso olhar e procuram restringir o olhar da própria pessoa, que muitas vezes acredita que só é aquilo que a sociedade diz, só vê o que o espelho mostra.

Como acabar com a família dos Preconceitos?

É mais difícil do que acabar com as Calorias. Estas requerem mudança de hábitos alimentares e exercícios físicos, na maioria das vezes. Contra os Preconceitos é preciso jogar a luz da Informação sobre eles, que não a toleram e saem desabalados. Assim, abrem caminho para que a Inclusão chegue e ocupe o espaço onde eles estavam.

Se eles vão voltar?

Sem dúvida nenhuma, muitas e muitas vezes. São resistentes e teimosos, estes monstrinhos. Afinal, por muitos anos ficaram no “bem bom”, tendo do bom e do melhor. E os seres humanos, seus hospedeiros, também resistem às mudanças, pois mudar dá trabalho.

Porém, uma coisa é certa: a cada vez que a Informação os ilumina e os desmascara, eles se enfraquecem e a Inclusão conquista mais adeptos e espaços.

Até que um dia….

(*) Marta Gil é socióloga, consultora na área da Deficiência e Coordenadora Executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas.

* Colaboração: Tânia Lopes

28 de Abril de 2008

Esteira na praia é enganação!

Arquivado sob: Comunicação, Artigo — admin @ 16:27

O Globo Online, Ancelmo.com, 28/04/2008:

Esteira na praia é enganação!

ANDREI BASTOS

A coluna de Ancelmo Gois publicou na semana passada a foto de uma senhora fazendo “test-drive” da esteira que inventaram para os deficientes curtirem o verão carioca. Mas como é que o povo cadeirante vai chegar na praia se não existe transporte público acessível na cidade? E depois, chegando na beirinha, o que o cadeirante vai fazer? Pular da cadeira de rodas para a água?

Essa história de esteira é uma tremenda enganação! Não adianta falar de inclusão, na praia, na rua, na chuva, ou numa casinha de sapê, se a turma não tem como ir e vir. Em contraposição a essa lorota, as histórias de restrições à liberdade, ao direito à educação e ao trabalho e à própria vida em sociedade são muitas, mas duas delas, recentes, ilustram bem as condições absurdas em que vivem as pessoas com deficiência no Rio de Janeiro.

Agora mesmo o Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD) ganhou uma liminar na Justiça para garantir transporte para Bruno Lima Cardoso, um rapaz de 21 anos, tetraplégico, que passou no vestibular de Ciência da Computação na UFRJ e não tem como ir às aulas. A secretária municipal da Pessoa com Deficiência, Leda Azevedo, teve o desplante de oferecer uma van às terças-feiras para o rapaz e, talvez até por causa disso, o Judiciário deu imediatamente ganho de causa ao instituto e determinou que o município providencie transporte todos os dias, sob pena de multa diária pelo descumprimento.

Já Cláudio Pinto, paraplégico, morador de Campo Grande como Bruno, com mais de 30 anos, casado, dois filhos, foi obrigado a renunciar a um emprego na Light, no Centro da cidade, por não ter como se deslocar. Precisa dizer mais?

Diante dessas verdadeiras tragédias, uma esteira na praia não pode ser levada a sério e muito menos ser considerada um avanço em acessibilidade para a cidade do Rio de Janeiro. Em vez de resolver o que realmente interessa, que é a acessibilidade no transporte coletivo, a prefeitura fica inventando coisas que desviam a atenção da sociedade e não resolvem nada. É preciso que se estabeleça uma política de Estado, e não apenas políticas públicas de governo, que priorize essa questão do transporte público acessível nacionalmente, com ênfase muito forte no Rio de Janeiro, que tem uma frota de 10 mil ônibus e apenas 48 adaptados, o que é uma piada de profundo mau gosto. Se isso não for resolvido, vai ser tudo enganação como essa história das esteiras.

O prefeito deveria se dedicar verdadeiramente a resolver esse problema e não procurar, em ano eleitoral, apenas ganhar espaço nos jornais, como o da foto da cadeirante na coluna do Ancelmo. O que nós, pessoas com deficiência, precisamos é de cidadania plena.

(Link para Ancelmo.com)

IBDD | Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência - (21) 3235-9290